O que a escola não nos ensina sobre dinheiro (e não é o que você imagina)

O que a escola não nos ensina sobre dinheiro (e não é o que você imagina)

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Tem uma frase que já virou clichê nas redes sociais: “a escola nos ensina a calcular a área de um trapézio, mas não nos ensina a declarar imposto de renda.” Bonita, viraliza fácil, mas é imprecisa.

A verdade é que educação financeira está no currículo brasileiro há anos. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em 2017 e 2018, trata o tema como assunto transversal: juros, inflação, impostos, investimentos e planejamento financeiro aparecem, principalmente, nas aulas de Matemática desde o Ensino Fundamental. Não é sugestão, é diretriz nacional, válida para escola pública e particular.

E não é raro encontrar gente que passou em vestibulares concorridos há duas ou três décadas dizendo que já viu juros compostos, taxa Selic e cálculo de financiamento na época do colégio. O conteúdo sempre existiu, pelo menos na matemática financeira.

O problema é outro. Currículo brasileiro é extenso demais para o tempo de aula disponível, professores correm contra o calendário para “vencer a matéria”, e um adolescente de 15 anos raramente presta atenção quando o assunto é aplicação financeira e não vai cair na prova de amanhã. Resultado: a informação passou, mas não ficou.

Diante disso, faz mais sentido perguntar outra coisa: não “o que a escola não ensina”, mas que tipo de visão de mundo sobre dinheiro a escola não constrói, mesmo quando ensina a fórmula certa. Aqui vão três pontos que, na nossa visão, ficam de fora. Não por falta de conteúdo, mas por falta de enquadramento.

1. O caminho não é só: estudar, passar no vestibular, virar funcionário

A trajetória que a escola empurra, ainda que sem dizer isso explicitamente, é linear: estude bastante, entre numa boa faculdade, consiga um bom emprego numa empresa estabelecida. É um caminho válido e, para muita gente, o certo. Mas é tratado como o único destino desejável, quase como sinônimo de sucesso.

Empreender (abrir o próprio negócio, prestar serviço como autônomo, criar um produto) normalmente aparece como plano B, coisa de quem “não deu conta” da vida acadêmica. Raramente é apresentado como escolha estratégica, com métricas próprias, formas de avaliar risco, entender mercado e fazer contas de viabilidade.

E deixemos claro: empreender também exige estudo, e bastante. Entender demanda, precificação, fluxo de caixa, comportamento do consumidor, concorrência. A diferença é que ninguém formaliza esse estudo como caminho possível dentro da escola, fica por conta de quem procura por fora, geralmente batendo a cabeça sozinho.

2. Ganhar dinheiro trabalhando é diferente de fazer o dinheiro trabalhar

A escola prepara muito bem para uma coisa: transformar seu tempo e conhecimento em renda. Estude, especialize-se, seja bom no que faz, ganhe mais. É a lógica do salário.

O que raramente se discute é a lógica do patrimônio: como o dinheiro que sobra pode ser transformado em ativos que geram renda sem depender diretamente de você trabalhar mais horas. Investimentos, imóveis, participação em negócios, direitos autorais — são formas de fazer o capital trabalhar, e isso é uma competência tão real quanto saber uma profissão.

Não tem a ver com “ficar rico rápido” nem substituir o trabalho, mas com entender que existe uma segunda equação na vida financeira, além de “trabalhar mais para ganhar mais”: a de acumular ativos que sustentem você no futuro, inclusive quando você não puder ou não quiser mais trabalhar como trabalha hoje.

3. Negociar não é feio, chato ou deselegante

Boa parte da formação escolar trata negociação como algo distante, no máximo aparece em aula de história, falando de acordos entre países. Mas negociação é uma habilidade financeira do dia a dia: pedir aumento, negociar preço de aluguel, discutir uma proposta de trabalho, pechinchar numa compra grande.

Muita gente cresce achando que “cobrar o que vale” é chato, ou que o preço posto é sempre o preço final. Isso custa dinheiro real ao longo da vida (em salários abaixo do mercado, em contratos mal negociados, em compras feitas sem questionar condições). E, de novo, não é uma habilidade sem conteúdo: dá para estudar técnicas, entender de onde vem o poder de barganha em cada situação, treinar argumentação.

A base está lá. A visão de mundo, nem sempre

A conclusão que fica não é “a escola falhou” nem “a escola é perfeita”. É mais sutil: o conteúdo técnico de educação financeira já está garantido por lei, mesmo que a execução varie muito de escola para escola. O que costuma faltar é o enquadramento mais amplo: mostrar que existe mais de um caminho profissional válido, que dinheiro trabalha por conta própria além do seu trabalho, e que negociar é parte normal da vida financeira, não exceção.

Isso não costuma vir de uma aula específica. Vem de leitura, de conversa, de observar quem já trilhou esses caminhos e, com sorte, de textos como este, que tentam preencher a lacuna entre o que a fórmula ensina e o que a vida cobra.

Por João Victorino

João Victorino é administrador de empresas e especialista em finanças pessoais com ampla experiência no mundo corporativo, liderando unidades de negócios, equipes e transformado estratégia em prática por todas as empresas em que trabalhou. Liderou grandes negociações com instituições financeiras de grande porte, com impacto de bilhões de reais em faturamento e receita.

Formado em Administração de Empresas e com MBA pela FIA – USP, professor de MBA do IBMEC, colunista da Investing.com, entre outras atividades.

Empreendeu em várias empresas como investidor, em paralelo com a vida executiva, e aprendeu com sucessos e fracassos nesse segmento.

Entendeu e aplicou a importância de ter equilíbrio financeiro ao longo de mais de 30 anos de investimentos em vários setores, com amplo sucesso. Fez 1 milhão de reais de patrimônio antes dos 30 anos de idade, e hoje divide esses aprendizados.

Para isso, criou e lidera a iniciativa A hora do dinheiro, com uma linguagem simples, objetiva e inclusiva.

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