5 coisas que o próximo governo precisa fazer na economia — e uma pauta fora dela — para ter um bom mandato

5 coisas que o próximo governo precisa fazer na economia — e uma pauta fora dela — para ter um bom mandato

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Dreamstime - Fernanda Hinnig
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Um bom governo, na economia, não se mede por discursos de posse ou promessas de campanha. Ele se mede pela capacidade de reduzir o custo de vida, gerar empregos de qualidade, devolver previsibilidade às empresas e melhorar a segurança de quem vive e trabalha no país.

Com Luiz Inácio Lula da Silva reeleito para o mandato de 2027 a 2030, o Brasil entra em um novo ciclo com desafios já conhecidos: dívida pública elevada, Selic alta, inflação acima do centro da meta, necessidade de concluir a reforma tributária e uma agenda urgente de segurança pública.

Abaixo estão as cinco prioridades que devem definir se este será um bom governo (e uma pauta essencial fora do campo estritamente econômico).

1. Estabilizar a dívida pública

A dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026, o equivalente a cerca de R$ 11,1 trilhões, segundo dados do Banco Central. É o maior nível desde a pandemia e representa uma das principais restrições ao crescimento sustentável do país.

Estabilizar a dívida não significa necessariamente promover cortes indiscriminados em serviços públicos. Significa fazer escolhas responsáveis: reduzir desperdícios, revisar privilégios, conter despesas obrigatórias que crescem acima da receita e melhorar a eficiência do Estado.

Para o cidadão, o efeito aparece de forma indireta, mas concreta. Quando o mercado confia nas contas públicas, o governo consegue se financiar a custos menores, o que reduz a pressão por juros altos e cria mais espaço para investimento.

O que um bom governo deve entregar: uma trajetória crível de estabilização ou queda da relação dívida/PIB, com metas fiscais transparentes e ajustes graduais, em vez de medidas apenas contábeis ou de curto prazo.

2. Reduzir a inflação e criar condições para juros menores

A Selic estava em 13,75% ao ano próximo do segundo turno, depois de ter chegado a 15% em 2025. Juros altos encarecem o crédito, o financiamento imobiliário, o capital de giro das empresas e o cartão de crédito — instrumentos centrais na vida financeira das famílias brasileiras.

O IPCA estava em 4,58% em setembro de 2026, acima do centro da meta de inflação. Isso mostra que o país ainda precisa combinar disciplina fiscal, política monetária responsável e ações contra gargalos de oferta, como custos de energia, logística e alimentos.

Reduzir a Selic não é apenas uma discussão técnica para economistas. Para uma pequena indústria, um comércio ou uma empresa de serviços, cada ponto percentual a mais nos juros significa menos capacidade de investir, contratar, estocar e expandir.

O alívio para quem produz no Brasil não precisa vir de subsídios seletivos, que costumam beneficiar grupos específicos e pressionar o orçamento público. Ele pode vir de algo mais simples e mais justo: juros menores, crédito mais acessível, menos burocracia e regras tributárias previsíveis.

Quando o custo do dinheiro cai e o ambiente de negócios fica menos complexo, a empresa produz mais, contrata mais e consegue repassar preços menores ao consumidor. Esse é um círculo virtuoso: menos juros, mais produção, mais emprego e mais competição.

O presidente não define a Selic: essa é uma atribuição do Banco Central. Mas o governo influencia o ambiente econômico. Contas públicas mais previsíveis ajudam a reduzir a percepção de risco e podem criar condições para uma trajetória de queda dos juros sem comprometer o controle da inflação.

O que um bom governo deve entregar: inflação convergindo para a meta, queda gradual e sustentável dos juros e alívio real no custo do crédito para famílias e pequenas empresas.

3. Concluir a reforma tributária com segurança jurídica

A reforma tributária é uma das maiores mudanças estruturais em andamento no Brasil. A partir de janeiro de 2027, a CBS deve substituir PIS, Cofins, parte do IPI e o IOF sobre seguros, iniciando a transição para um sistema de tributação sobre consumo mais simples.

Porém, ainda faltam definições importantes: alíquota, regras de transição, documentação fiscal, adaptação das empresas e detalhes do chamado split payment. Sem clareza, aumenta o risco de custos de conformidade, litígios e insegurança para pequenos negócios.

Uma boa reforma tributária não é apenas “mudar impostos”. É reduzir complexidade, diminuir disputas judiciais, tornar as regras previsíveis e evitar que o custo tributário seja repassado integralmente ao consumidor.

O que um bom governo deve entregar: regras claras, transição bem comunicada, apoio técnico às empresas e um sistema tributário mais simples, justo e menos distorcivo.

4. Aumentar produtividade, investimento e empregos de qualidade

O Brasil precisa crescer sem depender apenas do consumo, dos gastos públicos ou das commodities. O PIB cresceu 2,29% em 2025 e o desemprego atingiu 5,3% em agosto de 2026, mas o desafio é transformar esse desempenho em ganhos duradouros de renda e produtividade.

Isso exige investimento em infraestrutura, energia competitiva, educação técnica, inovação, crédito para empresas produtivas e redução do chamado “custo Brasil”. Também envolve aproveitar oportunidades como minerais críticos, transição energética e inteligência artificial, sem abandonar setores tradicionais que geram emprego.

Emprego é essencial, mas não basta criar vagas informais ou de baixa remuneração. Um bom governo econômico deve elevar a renda média, a formalização e a produtividade do trabalho.

O que um bom governo deve entregar: mais investimento privado e público, menos gargalos logísticos e energéticos, crescimento da produtividade e expansão de empregos formais com salários reais em alta.

5. Proteger o orçamento das famílias e reduzir o endividamento

Em julho de 2026, as famílias destinavam 28,7% da renda mensal ao pagamento de dívidas; desse total, 11,5% eram apenas juros. Isso revela um problema central: mesmo com desemprego baixo, parte relevante da população continua pressionada pelo custo do crédito e pelo custo de vida.

Um bom governo deve atacar esse problema por vários caminhos:

  • Conter a inflação de itens essenciais, como alimentos, energia e transporte.
  • Reduzir juros e spread bancário por meio de concorrência entre bancos, transparência e regulação eficiente.
  • Ampliar o acesso a crédito responsável, evitando o superendividamento.
  • Priorizar gastos públicos que reduzam custos de vida, como transporte, saúde, habitação e educação.
  • Manter programas sociais bem focalizados, sem transformá-los em despesas permanentes sem contrapartida fiscal.

A questão não é escolher entre responsabilidade fiscal e proteção social. É garantir que o gasto público seja eficiente, sustentável e realmente chegue a quem mais precisa.

O que um bom governo deve entregar: queda do comprometimento da renda das famílias com dívidas, inflação controlada e melhora do poder de compra real.

6. Aprovar e implementar a PEC da Segurança Pública

A segurança pública não é um tema econômico no sentido estrito, mas afeta diretamente a economia, o bem-estar e a confiança das famílias e empresas. Ela influencia a liberdade de ir e vir, o funcionamento dos negócios, o turismo, os investimentos e a qualidade de vida. Por isso, deve fazer parte da avaliação de um bom governo.

Embora a execução policial seja predominantemente responsabilidade dos estados, a União tem papel relevante no financiamento, na inteligência, no combate ao crime organizado e na coordenação federativa. A PEC 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública, está em tramitação no Senado após aprovação na Câmara dos Deputados e na Comissão de Constituição e Justiça.

O que a PEC propõe

Entre os pontos centrais da proposta estão:

  • Constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), criando base para cooperação entre União, estados, Distrito Federal e municípios.
  • Compartilhamento de informações, provas e sistemas entre órgãos de segurança, com forças-tarefa conjuntas.
  • Regras mais rígidas para líderes e integrantes de organizações criminosas, facções, milícias e grupos paramilitares.
  • Ampliação de atribuições da Polícia Federal e atuação da Polícia Rodoviária Federal em rodovias, ferrovias e hidrovias federais.
  • Possibilidade de criação de polícias municipais, desde que haja capacidade financeira e para evitar sobreposição de atribuições.
  • Destinação de parte dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo Penitenciário Nacional a estados e municípios.

Por que isso importa para o próximo governo

O desafio não é apenas aprovar a emenda constitucional. É transformá-la em operação prática: integração real de dados, financiamento previsível para os estados, treinamento e proteção dos agentes, combate ao crime organizado e políticas de prevenção nas áreas de maior vulnerabilidade.

A segurança pública também tem efeito econômico. Empresas enfrentam custos com proteção, logística, seguros e perdas por roubo; famílias mudam hábitos, reduzem consumo em determinados horários e locais; e a violência reduz a atratividade de regiões para investimentos e turismo.

O que um bom governo deve entregar

O desempenho nessa área deve ser avaliado por resultados concretos, não apenas por discursos ou pelo endurecimento retórico das penas:

  • Queda sustentada de homicídios, roubos, furtos e outros crimes de maior impacto.
  • Maior integração entre polícias federais, estaduais e municipais.
  • Redução da influência de facções e milícias nos territórios e no sistema prisional.
  • Financiamento estável e transparente para estados e municípios.
  • Investimento em prevenção, inteligência, tecnologia, perícia, educação e oportunidades para jovens em áreas vulneráveis.

A PEC ainda precisa passar pelo Plenário do Senado; se for alterada, retorna à Câmara para nova análise. Portanto, o próximo governo terá a responsabilidade política de construir consenso federativo e garantir que a coordenação entre União e estados não se transforme em disputa institucional.

Como avaliar o governo em 2030

Ao final do mandato, o brasileiro deve olhar menos para discursos e mais para resultados verificáveis. Uma boa forma de avaliar o governo é acompanhar seis perguntas:

  1. A dívida pública parou de crescer em relação ao PIB?
  2. A inflação voltou de forma consistente à meta?
  3. Os juros caíram sem perder o controle da inflação?
  4. A reforma tributária foi implementada sem aumentar a insegurança jurídica?
  5. A renda média, o emprego formal e a produtividade melhoraram?
  6. A segurança pública melhorou de forma mensurável, com menos criminalidade violenta, mais integração entre entes federativos e uso eficiente dos recursos públicos?

Se essas respostas forem positivas, o país terá avançado em direção a uma economia mais estável, justa e previsível — e a uma sociedade mais segura. Se falharem, o problema não estará apenas nos números macroeconômicos, mas no bolso, na rotina e na segurança de quem paga juros, enfrenta preços altos e depende de serviços públicos de qualidade.

Perguntas frequentes

O presidente pode reduzir a Selic diretamente?

Não. A definição da taxa básica de juros é do Comitê de Política Monetária do Banco Central. O governo pode, porém, contribuir para a queda dos juros ao melhorar a credibilidade fiscal e reduzir pressões inflacionárias.

Cortar gastos é sempre a melhor solução?

Não necessariamente. O ajuste precisa ser seletivo: cortar desperdício, privilégios e gastos ineficientes, preservando investimentos e políticas sociais bem direcionadas.

A reforma tributária vai aumentar impostos?

A reforma muda a forma de cobrar tributos sobre consumo, substituindo tributos existentes por um modelo de IVA. O efeito sobre cada pessoa ou empresa dependerá das alíquotas, das exceções, do setor econômico e da qualidade da transição.

A segurança pública é responsabilidade do presidente?

A operação das polícias estaduais é, em regra, responsabilidade dos governadores. Mas o presidente tem papel central na coordenação nacional, no financiamento, na inteligência, no combate ao crime organizado e na articulação da PEC da Segurança Pública.

Quais indicadores devo acompanhar?

Além do PIB e do desemprego, acompanhe a inflação, a Selic, a relação dívida/PIB, o resultado primário, o comprometimento da renda das famílias com dívidas e indicadores de criminalidade violenta. Juntos, eles mostram se a economia e a segurança pública estão melhorando na prática.

Referências

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FOLHA DE S.PAULO. Articulação com estados e aplicação da PEC são desafios para Lula mudar cenário na segurança pública. São Paulo: Folha de S.Paulo, out. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/10/articulacao-com-estados-e-aplicacao-da-pec-sao-desafios-para-lula-mudar-cenario-na-seguranca-publica.shtml. Acesso em: 27 out. 2026.

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Por João Victorino

João Victorino é administrador de empresas e especialista em finanças pessoais com ampla experiência no mundo corporativo, liderando unidades de negócios, equipes e transformado estratégia em prática por todas as empresas em que trabalhou. Liderou grandes negociações com instituições financeiras de grande porte, com impacto de bilhões de reais em faturamento e receita.

Formado em Administração de Empresas e com MBA pela FIA – USP, professor de MBA do IBMEC, colunista da Investing.com, entre outras atividades.

Empreendeu em várias empresas como investidor, em paralelo com a vida executiva, e aprendeu com sucessos e fracassos nesse segmento.

Entendeu e aplicou a importância de ter equilíbrio financeiro ao longo de mais de 30 anos de investimentos em vários setores, com amplo sucesso. Fez 1 milhão de reais de patrimônio antes dos 30 anos de idade, e hoje divide esses aprendizados.

Para isso, criou e lidera a iniciativa A hora do dinheiro, com uma linguagem simples, objetiva e inclusiva.

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