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Entenda como a FIFA ganha dinheiro, quanto lucra na Copa do Mundo e qual é o verdadeiro impacto econômico para o país campeão.
Por que a Copa do Mundo é um ciclo financeiro de 4 anos
Quando olhamos as finanças da FIFA, o erro é tentar analisar ano a ano, como se fosse uma empresa tradicional listada em bolsa. A lógica ali é outra: tudo gira em torno de ciclos de 4 anos, que culminam na Copa do Mundo masculina.
Nos três primeiros anos do ciclo, a entidade gasta pesado com desenvolvimento do futebol, organização de competições e estrutura global, o que pode gerar resultados contábeis apertados ou até negativos. No ano da Copa, a receita explode e “fecha a conta” do período, concentrando a maior parte do faturamento do ciclo.
Para o ciclo atual (2023–2026), a FIFA revisou seu orçamento e passou a projetar uma receita recorde de 13 bilhões de dólares, impulsionada sobretudo pela Copa do Mundo de 2026 com 48 seleções e pela expansão do Mundial de Clubes. Essa cifra supera o orçamento inicial da entidade, que falava em cerca de 11 bilhões para o ciclo, mostrando o quanto o produto “Copa do Mundo” ainda tem espaço de crescimento.
Quanto a FIFA realmente fatura e o que sobra de lucro
Ainda dentro desse ciclo, os números anuais ajudam a entender a dinâmica:
- Em 2023, a FIFA projetou cerca de 1,17 bilhão de dólares em receitas, com despesas maiores, justamente por ser um ano de investimento e não de Copa do Mundo.
- Em 2025, já com o novo formato do Mundial de Clubes, a receita disparou para 2,661 bilhões de dólares, superando o orçamento anual revisado em aproximadamente 9%.
Apesar de falar em “lucro” no dia a dia, tecnicamente a FIFA é uma associação de direito privado, sem fins lucrativos, sediada na Suíça. Isso significa que o objetivo formal não é distribuir dividendos, mas reinvestir quase tudo o que entra em desenvolvimento do esporte, competições e programas com as federações nacionais.
Na prática, o que sobra de “resultado líquido” ao final de cada ciclo são reservas de algumas centenas de milhões de dólares para garantir a saúde financeira da entidade, enquanto bilhões são repassados às federações e confederações via programas como o FIFA Forward e outros fundos de desenvolvimento.
Isso não significa, porém, que a entidade seja “boazinha” ou imune a problemas de governança: apesar de seu status de associação sem fins lucrativos, a FIFA já esteve no centro de grandes escândalos de corrupção, com dirigentes indiciados por esquemas de suborno e lavagem de dinheiro – o caso mais emblemático é o escândalo de 2015, quando autoridades dos Estados Unidos e da Suíça apontaram um esquema de propinas ligado a direitos de transmissão e escolha de sedes de torneios, envolvendo dezenas de dirigentes e executivos do futebol mundial.
Veja também: Vale a pena sediar uma Copa do Mundo?
Quem é “dono” da FIFA e como funciona o poder
Um ponto que costuma gerar confusão: a FIFA não tem dono. Ela não é uma empresa com acionistas, mas sim uma associação formada por 211 federações nacionais de futebol, como CBF (Brasil), AFA (Argentina) e assim por diante.
O poder político se concentra no Congresso da FIFA, onde cada país tem direito a um voto, independentemente do tamanho do mercado ou da força esportiva. O voto do Brasil vale o mesmo que o de uma pequena nação insular, algo que ajuda a explicar tanto o caráter “democrático” quanto parte das tensões políticas que cercam a entidade.
O presidente é eleito pelas federações-membro, com mandato determinado, e comanda uma estrutura global que se comporta, na prática, como um grande conglomerado esportivo com tentáculos em todos os continentes.
Quem lucra mais com a Copa do Mundo?
Aqui vai uma resposta direta: o maior vencedor financeiro da Copa do Mundo é a própria FIFA.
O motivo é simples: a entidade detém os direitos exclusivos de comercialização do torneio, enquanto o país-sede arca com a maior parte dos custos de infraestrutura. As principais fontes de receita da FIFA na Copa são:
- Direitos de transmissão (TV e streaming): costumam representar perto de metade da receita do torneio, com contratos bilionários com emissoras e plataformas no mundo todo.
- Direitos de marketing (patrocínios): grandes marcas globais pagam valores altíssimos para terem o selo de “parceiro oficial” da Copa e acesso a ativações exclusivas.
- Bilheteria e hospitalidade: venda de ingressos e pacotes VIP/hospitality, cuja receita também vem crescendo graças ao aumento de jogos e à criação de experiências premium.
Só a Copa do Mundo de 2026, com 48 seleções e 104 partidas, deve gerar cerca de 8,9 bilhões de dólares em receitas para a FIFA, respondendo pela maior parte da meta de 13 bilhões no ciclo 2023–2026. Estudos ligados à entidade estimam ainda que a Copa e o novo Mundial de Clubes possam adicionar dezenas de bilhões de dólares ao PIB global, via turismo, consumo e investimentos relacionados ao evento.
O modelo de negócios é extremamente vantajoso para a FIFA porque as receitas são centralizadas em Zurique, enquanto o país-sede assume a maior parte dos custos de estádios, mobilidade urbana, segurança, telecomunicações e infraestrutura urbana. Em contrapartida, a entidade costuma negociar isenções ou regimes fiscais especiais, o que blinda boa parte de suas receitas de tributações locais.
Devemos lembrar, todavia, que as marcas nao investem simplesmente por gostar do futebol, ou da Fifa, ou das seleções.
Elas investem porque querem você! A audiência, nós somos o produto deles! Se liga, que é o momento em que os “caras” tentam “lavar a égua“, isto é, enfiar do um monte de produtos nos torcedores. Entenda sua posição nesse game. Quem entende ganha o jogo.
O país-sede ganha dinheiro com a Copa?
Do ponto de vista do país-sede, o filme é bem mais complexo. Há ganhos, mas também muitos riscos e custos invisíveis.
Estudos recentes sobre a Copa de 2026 e o Mundial de Clubes de 2025 estimam que esses eventos podem gerar juntos até 62 bilhões de dólares em PIB adicional e centenas de milhares de empregos no mundo, com impacto relevante em turismo, construção civil, serviços e consumo.
No entanto, boa parte desse efeito é concentrada no curto prazo (durante e logo após o evento) e depende fortemente da capacidade de o país planejar o legado – ou seja, o uso posterior de estádios, obras de mobilidade, hotéis e toda a infraestrutura criada. Quando falta planejamento, os ganhos de curto prazo não compensam o custo dos investimentos, e a Copa se transforma em um evento caro para o contribuinte.
Ganhar a Copa muda a economia do país campeão?
Outra crença muito comum é a de que levantar a taça garante um “boom” econômico no país campeão. Os dados contam uma história mais sóbria.
Um estudo acadêmico com dados da OCDE desde 1961 identificou que vencer a Copa do Mundo gera, em média, um crescimento adicional de aproximadamente 0,25 ponto percentual no PIB nos dois trimestres seguintes ao título, em comparação com um cenário sem a conquista. Esse resultado aparece repetidamente quando se comparam diferentes edições e diferentes campeões.
O “efeito orgulho” no consumo
A explicação não está no prêmio em dinheiro, que é pequeno diante do PIB de um país, mas sim no chamado “efeito orgulho”. Depois do título, o clima de euforia aumenta o índice de confiança do consumidor, e as pessoas tendem a gastar mais em:
- bares e restaurantes
- eletrônicos e TVs
- artigos esportivos e camisas oficiais
- viagens e lazer
Esse aumento de consumo ajuda a puxar o PIB no curtíssimo prazo, especialmente em setores ligados ao varejo e serviços.
O efeito vitrine nas exportações
Além do consumo interno, o campeão da Copa ganha uma exposição internacional gigantesca, o que melhora temporariamente a percepção de “marca-país” e pode impulsionar exportações e negócios internacionais. O próprio estudo sobre o impacto de vencer o Mundial mostra evidências de aumento nas exportações, compatível com essa maior visibilidade do país e de seus produtos.
Ou seja: a Copa funciona como uma vitrine global, mas esse brilho extra costuma ser temporário e precisa ser acompanhado de estratégia econômica para se traduzir em algo duradouro.
O outro lado da moeda
Por mais que exista esse efeito positivo, os estudos apontam que:
- o impacto costumam durar poucos trimestres;
- ele não é forte o suficiente para reverter crises profundas de inflação, desemprego ou recessão;
- sem reformas estruturais ou políticas consistentes, o título funciona mais como um anestésico do que como uma cura para problemas econômicos.
Em linguagem de finanças pessoais: a Copa é um pico de renda extraordinária, mas não substitui um bom planejamento de longo prazo.
O que a economia da Copa ensina para o seu dinheiro
Olhar para os números da FIFA e da Copa do Mundo é uma aula prática de educação financeira em escala global. Algumas lições que valem também para a sua vida financeira:
- Ciclos importam mais que anos isolados: assim como a FIFA precisa de um ciclo de 4 anos para fechar sua conta, a sua carteira também deve ser analisada em períodos maiores, não apenas mês a mês.
- Receita concentrada aumenta o risco: depender demais de uma única fonte de receita (como a Copa para a FIFA ou um único cliente para um profissional) cria vulnerabilidade. Diversificação é proteção.
- “Ganhos emocionais” são reais, mas passageiros: assim como o efeito do título sobre o PIB some em poucos trimestres, bônus, heranças e picos de renda podem evaporar se não forem bem planejados.
- Infraestrutura sem planejamento vira peso morto: construir estádios sem uso depois da Copa se parece com fazer dívidas para “investimentos” que você não vai usar ou que não geram retorno.
Se até uma entidade bilionária como a FIFA depende de planejamento de ciclo, reservas e disciplina de gastos, vale a reflexão: como está o seu próprio “orçamento de Copa do Mundo”?
Se você curte entender o dinheiro por trás dos grandes eventos e quer traduzir essas lições para o seu bolso, continue acompanhando os conteúdos da A Hora do Dinheiro – aqui a gente usa a paixão pelo futebol como porta de entrada para falar de finanças de um jeito simples, direto e aplicável ao seu dia a dia.
Fontes
FIFA. 2023-2026 cycle budget and 2024 detailed budget. In: FIFA. Annual report 2022. Zurich, 2022. Disponível em: <https://publications.fifa.com/en/annual-report-2022/finances/2023-2026-cycle-budget-and-2024-detailed-budget/>. Acesso em: 10 jun. 2026.
FIFA. 2025 revenue. In: FIFA. Annual report 2025. Zurich, 2025. Disponível em: <https://inside.fifa.com/official-documents/annual-report/2025/financials/2025-financials-in-review/2025-revenue>. Acesso em: 10 jun. 2026.
MELLO, Marco. A kick for the GDP: the effect of winning the FIFA World Cup. Oxford Bulletin of Economics and Statistics, v. 86, n. 6, p. 1313–1341, 2024. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/obes.12627>. Acesso em: 10 jun. 2026.
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WILSON, Rob. The economic promise and paradox of hosting a FIFA World Cup. UCFB, 14 maio 2026. Disponível em: <https://www.ucfb.ac.uk/news/the-economic-promise-and-paradox-of-hosting-a-fifa-world-cup/>. Acesso em: 10 jun. 2026.
WHITING, Kate. How the World Cup could boost the growing sports economy. World Economic Forum, 29 abr. 2026. Disponível em: <https://www.weforum.org/stories/2026/04/fifa-world-cup-sports-economy-growth/>. Acesso em: 10 jun. 2026.
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