Trade Selic em queda: quem tem coragem?

Trade Selic em queda: quem tem coragem?

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Declan Sun - unsplash
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A expectativa de queda da Selic costuma despertar o interesse de investidores por títulos prefixados, especialmente as Letras do Tesouro Nacional (LTN), conhecidas no Tesouro Direto como Tesouro Prefixado. A lógica parece simples: comprar hoje uma taxa elevada e, se os juros caírem, vender o título antes do vencimento com lucro por meio da marcação a mercado.

Mas essa estratégia exige mais do que uma aposta na próxima decisão do Copom. Ela depende da trajetória da inflação, do cenário fiscal, do ambiente internacional e da capacidade do investidor de suportar volatilidade. Para os próximos anos, há razões para esperar um período potencialmente turbulento.

Como funciona o trade da Selic em Queda?

Quando um investidor compra uma LTN e permanece até o vencimento, recebe a rentabilidade contratada no momento da aplicação, desde que não haja problemas de crédito do emissor (no caso, o Tesouro Nacional). Nesse cenário, as oscilações diárias de preço pouco importam.

A situação muda quando o objetivo é vender antes do vencimento. O preço do título passa a refletir as taxas praticadas no mercado. Se os juros futuros caem depois da compra, o preço do título prefixado tende a subir. Se os juros sobem, o preço tende a cair.

É a chamada marcação a mercado.

Imagine um investidor que compre uma LTN com taxa prefixada de 13% ao ano. Algum tempo depois, devido à melhora das expectativas, títulos semelhantes passam a ser negociados a 11% ao ano. Como o título antigo oferece uma remuneração superior à disponível no mercado, ele se torna mais valioso. O investidor pode vendê-lo antes do vencimento e realizar um ganho.

O movimento contrário também é possível. Se a inflação surpreender para cima, o risco fiscal aumentar ou o cenário externo se deteriorar, as taxas futuras podem subir. Nesse caso, o preço da LTN cairá, mesmo que a taxa contratada originalmente continue válida até o vencimento.

A pergunta central: vale apostar?

A resposta depende do horizonte e do objetivo da carteira. Para quem tem uma necessidade definida de liquidez (acesso fácil e rápido a este dinheiro) em uma data específica, concentrar recursos em uma LTN longa pode ser inadequado. Uma alta inesperada dos juros pode produzir uma perda relevante justamente no momento em que o dinheiro for necessário.

Por outro lado, para o investidor que aceita volatilidade e possui uma parcela da carteira destinada a capturar movimentos de juros, faz sentido considerar uma alocação parcial em títulos prefixados. A taxa atual da economia brasileira ainda é elevada: os juros básicos são de 13,75% ao ano em setembro de 2026, enquanto a inflação acumulada registrada na mesma base de dados aparece em 4,22%.

Isso não significa, contudo, que a queda da Selic seja inevitável ou linear. O mercado pode antecipar cortes e, ainda assim, os juros longos subirem. Basta que a percepção de risco fiscal se deteriore, que a inflação projetada aumente ou que surja uma crise externa relevante.

O investidor não está apenas apostando na Selic de hoje. Está apostando na taxa de juros que prevalecerá durante boa parte do prazo do título.

Simulando na prática: LTN Set/2029 e a Selic em diferentes cenários

Para tornar a teoria mais concreta, vale simular um caso real. Pegue uma LTN (Tesouro Prefixado) com vencimento em setembro de 2029, negociada hoje a 13,76% ao ano. Com esse título comprado, o investidor “trava” essa taxa até o vencimento — mas o preço dele no mercado secundário vai oscilar todos os dias, dependendo de como as expectativas de juros mudam.

Simulando o preço desse mesmo título daqui a um ano, sob três cenários diferentes para a Selic:

Cenário (Selic em 1 ano)Taxa de mercado da LTNPreço em Set/27Retorno no período
Selic recua para 11%11,00% a.a.R$ 811,62+19,49%
Selic estável (~13,75%)13,75% a.a.R$ 772,85+13,78%
Selic sobe para 14%14,00% a.a.R$ 769,47+13,28%

(valores por R$ 1.000 de valor de face, considerando 2 anos restantes até o vencimento)

Por que isso acontece? Um título prefixado tem seu preço e a taxa de juros movendo em direções opostas. Se a Selic cai, os novos títulos emitidos pagam menos — e o seu, que ainda paga 13,76%, fica mais valioso, valorizando bem acima da taxa contratada. Se a Selic sobe, o oposto: títulos novos pagam mais, o seu perde atratividade relativa, e o preço sobe menos (ou pode até cair, dependendo da magnitude da alta).

O ponto mais importante da simulação, no entanto, é este: nada disso importa se você levar o título até o vencimento. Resgatado em 2029, o investidor recebe exatamente os 13,76% a.a. contratados — nem mais, nem menos. A marcação a mercado só se torna relevante para quem:

  • Precisa vender o título antes do prazo;
  • Acompanha o saldo “flutuando” no extrato da corretora ou do Tesouro Direto;
  • Investe via fundos ou ETFs, que marcam a mercado diariamente e repassam essa variação na cota.

Os riscos internacionais

Um dos principais motivos para cautela está no ambiente geopolítico. Conflitos no Oriente Médio, a guerra envolvendo Rússia e Ucrânia e as tensões em torno de Taiwan podem afetar simultaneamente energia, alimentos, cadeias logísticas e mercados financeiros.

O fechamento ou a restrição de importantes estreitos marítimos seria especialmente preocupante. O comércio mundial depende de rotas como o Estreito de Ormuz, o Estreito de Bab el-Mandeb e o Estreito de Taiwan. Qualquer interrupção relevante poderia elevar fretes, seguros, prazos de entrega e preços de commodities.

O petróleo seria um dos canais mais evidentes. Uma alta expressiva da commodity tende a pressionar combustíveis, transporte, custos industriais e expectativas de inflação. Mesmo que o choque seja inicialmente externo, os bancos centrais podem reagir mantendo juros elevados por mais tempo.

Para o Brasil, uma deterioração global também poderia provocar saída de capital de mercados emergentes, valorização do dólar e aumento dos prêmios (juros, retornos) exigidos pelos investidores. O resultado seria potencialmente desfavorável aos títulos prefixados: juros futuros mais altos e preços de mercado mais baixos.

Clima, combustíveis e inflação

Além da geopolítica, há riscos domésticos e climáticos. O fenômeno do Supér El Niño pode afetar a produção agrícola, chuvas, temperaturas e preços de alimentos e energia. Como a inflação brasileira possui componentes sensíveis a alimentação, transporte e combustíveis, eventos climáticos podem alterar rapidamente as expectativas.

Outro ponto é a política de subsídios e controle de preços dos combustíveis. Eventuais mudanças de governo podem levar ao encerramento de subsídios, à revisão de desonerações ou a uma política de repasse mais alinhada aos preços internacionais.

Esse ajuste pode ser economicamente necessário, mas tende a produzir impacto imediato sobre a inflação. Diesel e gasolina influenciam o transporte de mercadorias, o custo do frete, os preços dos alimentos e a operação de empresas em praticamente todos os setores.

Uma inflação mais persistente obrigaria o Banco Central a agir com maior cautela. A queda da Selic poderia ser interrompida, adiada ou até revertida. Para quem comprou prefixados longos contando com cortes contínuos, esse seria um cenário desconfortável.

Coragem, mas sem heroísmo

A alocação em LTN pode ser válida para uma parte da carteira, principalmente quando as taxas oferecem remuneração considerada atrativa e o investidor possui horizonte suficientemente longo. O problema está em transformar uma expectativa em certeza.

Nos próximos anos, a volatilidade pode ser considerável. O caminho dos juros dependerá não apenas das decisões do Copom, mas também da inflação, da política fiscal, das eleições, do petróleo, do câmbio, do clima e da evolução dos conflitos internacionais.

Portanto, a pergunta não deveria ser apenas “a Selic vai cair?”. O investidor precisa perguntar: “o que aconteceria com minha carteira se a Selic não caísse, se a inflação acelerasse ou se os juros longos subissem?”.

Quem tem coragem para aceitar esses cenários (e recursos para esperar) pode considerar uma posição moderada em prefixados. Quem precisa de estabilidade e liquidez talvez encontre mais conforto em uma carteira diversificada, sem transformar a marcação a mercado em uma aposta central.

No fim, investir em LTN não exige ausência de medo. Exige planejamento suficiente para que o medo não obrigue o investidor a vender no pior momento.

Referências

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Comunicados do Copom. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/comunicadoscopom. Acesso em: 24 set. 2026.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Taxa Selic. Brasília, DF: Banco Central do Brasil, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic. Acesso em: 24 set. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IPCA: Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo — agosto de 2026. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html. Acesso em: 24 set. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IPCA e INPC: agosto de 2026. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/e960e761fd92b53713562e392675d02f.pdf. Acesso em: 24 set. 2026.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. IPCA-15 é de -0,40% em agosto. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9260-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-15.html. Acesso em: 24 set. 2026.

TESOURO DIRETO. Tesouro Prefixado. Brasília, DF: Tesouro Direto, 2026. Disponível em: https://www.tesourodireto.com.br/produtos/titulos/prefixado. Acesso em: 24 set. 2026.

Por João Victorino

João Victorino é administrador de empresas e especialista em finanças pessoais com ampla experiência no mundo corporativo, liderando unidades de negócios, equipes e transformado estratégia em prática por todas as empresas em que trabalhou. Liderou grandes negociações com instituições financeiras de grande porte, com impacto de bilhões de reais em faturamento e receita.

Formado em Administração de Empresas e com MBA pela FIA – USP, professor de MBA do IBMEC, colunista da Investing.com, entre outras atividades.

Empreendeu em várias empresas como investidor, em paralelo com a vida executiva, e aprendeu com sucessos e fracassos nesse segmento.

Entendeu e aplicou a importância de ter equilíbrio financeiro ao longo de mais de 30 anos de investimentos em vários setores, com amplo sucesso. Fez 1 milhão de reais de patrimônio antes dos 30 anos de idade, e hoje divide esses aprendizados.

Para isso, criou e lidera a iniciativa A hora do dinheiro, com uma linguagem simples, objetiva e inclusiva.

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